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terça-feira, 30 de outubro de 2012

Que noite!



Cheguei em casa por volta das 16hs, os gritos e os palavrões ainda soavam em meus ouvidos, os pratos ainda estavam quebrados, as roupas jogadas e nossa foto rasgada ao meio ainda estavam no chão da sala. Comecei a limpar a bagunça, parecia que cada caco que recolhia representava um pedaço do meu coração que estava dilacerado, morto, batendo apenas por bater...
A noite caiu, meus olhos estavam vermelhos de tanto chorar, o ódio em meu coração parecia não ter mais fim, desejava ver o capeta ao ver ele na minha frente!
Eram 19hrs quando terminei, olhei minhas coisas no armário, olhei as malas. Soquei tudo dentro delas, o máximo que podia, pois nunca mais pisaria os meus pés naquela casa, nunca mais ouviria sua voz, nunca mais sentiria o seu cheiro...
Debaixo de chuva fui colocando mala por mala dentro do carro, estava com pressa não queria vê-lo antes que chegasse. Se o visse não resistiria e a discussão iria começar tudo de novo. Como pode alguém mudar tanto?
Entrei no carro e sai acelerando o máximo que pude sem olhar pra trás, sem pensar em nós. Só pensava no quanto queria fugir daquela prisão onde eu vivia, queria minha liberdade de volta, minha vida, meu direito de ir e vir sem dar satisfações a ninguém, ser eu mesma!
Chorava tanto que quase não via os semáforos, os pedestres, os motoqueiros... até que ouvi um "bum", o carro passou por cima de algo. Quando olhei para os lados vi um homem desacordado no capô do meu carro, o capacete me era familiar, a roupa também... eu atropelei e possivelmente tinha matado o cara que eu convivi durante cinco anos naquele apartamento apertado, com todas aquelas sua bugigangas, aquele cheiro de mofo que com os meses meu nariz já estava tão entupido que quase não dava para sentir meu perfume!
Ouvi alguém me chamando:

- Moça, moça? Você está bem?

Quando voltei a mim, respondi ao homem de cabelos grisalhos que estava tudo bem, mas que alguém precisava tirar o capacete daquele homem, eu queria ver o rosto, queria ter certeza de que não era o Alex, o meu Alex. O homem me disse que nada poderia fazer antes que o resgate chegasse.

- Resgate? Como assim resgate? - Perguntei com um nó na garganta.
- Sim senhora, chamamos o resgate, o homem está muito ferido, perdeu a perna, não viu?

Ai meu Deus, além de tentativa de homicídio eu ainda ia responder por outro crime que eu não sabia qual era o nome, mas que com certeza haveria um artigo na Constituição para amputação de membros!
Entrei em pânico, liguei o carro e saí acelerando com o corpo no capô e tudo, não fui muito longe, logo os policiais me acharam, me algemaram e me levaram para prestar esclarecimentos.
Na delegacia fiquei sabendo que o estado do atropelado era de coma profundo e eu lá sem poder fazer nada, nem se quer me davam o nome. Até que consegui ouvir de uma policial que ele estava na Santa Casa, assim que liberada corri para lá:

- Mocinha, por favor já chegou um homem que foi atropelado na marginal?
- Sim senhora.
- Pode me dar o nome dele?
- A senhora o conhece?
- Sim... eu o atropelei!
- Alex Carlos Almeida Junior

Fiz aquela cara de fudeu (!) e comecei a chorar... meu Deus! Por pior que tivesse sido aquela briga, eu te amava... quem mandou eu fugir de casa? Minha mãe sempre me disse que quando fazemos coisas escondidas dá merda! E que merda! O cara que eu achei que seria o pai dos meus filhos estava em como profundo e sem a perna e eu era a culpada!
Pedi pra entrar na UTI, me deram 10 minutos, peguei em sua mão e pedi desculpas por ter ido embora e ter deixado aquele bilhete em cima do seu notebook: "Eu te odeio! Estou indo fazer o que há tempos estou com vontade: viver! OTÁRIO!". Pedi desculpas por ter te atropelado e arrancado sua perna.
Chorei os dez minutos até que a enfermeira pediu que eu me retirasse, pois meu choro poderia piorar mais a sua situação.
Era 2:00hrs quando o médico me disse que o Alex não resistiu:

- NÃÃÃÃÃO!

Senti alguém me abraçando e perguntando o que havia acontecido:

- Foi só um sonho amor, relaxa.
- Eu te amo!
- Eu também te amo!

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